Exposição

matryoshka

16 de junho de 2017 — 15 de setembro de 2017

Local

  • Galeria Quadrado Azul, Porto

Ana Santos apresenta nesta exposição algumas peças que surpreendem pelo tom, escala, liberdade e precisão no uso dos materiais organizados a partir de um eixo vertical.

A lógica de construção em cada uma delas ecoa com a tradição do haiku Japonês que traz as palavras à presença física de uma vibração. Ana Santos atende à razão dos materiais eles próprios e manipula-os até acertar. Nem mais nem menos. O modo de juntar, sobrepor, cortar, torcer, transforma a colagem em subtracção. A operação é varrer enquanto cose-cozinha os pequenos acidentes. O varrimento vem depois de uma atenção demorada fazendo o espaço em volta acontecer à justa. Trata-se de chegar à vibração certa.

Como acertar? Fazendo coincidir velocidades diferentes.

Subtrair é a operação decisiva que vem sempre depois, quase no fim da peça acabada. Subtrair torna-se uma maneira de fazer respirar. É momento de suspensão e, por isso, decisivo. É preciso que os materiais encontrem a sua estabilidade interna. Nunca sabemos qual é antes de começar.

PVC, fios de nylon, bronze, ferro, chumbo, purpurina, parasol, fitas, motor giratório, parafina, purpurina, calcário, cola, colante, vidro, plástico, mangueira, tubo, penas e a lista continua.

Como faze-los confluir? A simples colocação dos objectos no espaço, dá-nos pistas para prosseguir. O olho que está aqui em causa reconhece, escolhe e incide como um laser sobre esta ou aquela junção, este e aquele intervalo entre duas coisas. Texturas, tecidos – os nervos de qualquer matéria – são tomados como cachos, por parcelas ou famílias e depois encostados à parede ou dispostos no chão. É preciso atender à posição certa antes de tudo. Pôr, dispor, sobrepor, contrapor: tudo maneiras de propor equilíbrios que se aguentam. Daí a elegância. Aguentam-se, com precisão, na escala do possível flexível.

Há nestas propostas (chamemos-lhes assim por enquanto) uma naturalidade alienígena.

De onde vem ela? Vem de reconhecer um princípio de acção em cada matéria usada, isto é – atender ao timbre dos materiais eles próprios. São quase todos pré fabricados, torcidos até chegarem por inteiro à sua natureza estranha. E não esquecer o Duns Escoto “a natureza é sempre curva” – começa-se numa ponta e não se acaba na outra. Gira-se à volta de cada peça, volta-se lá, aos pequenos detalhes, ajeita-se aqui, tira-se dali. A atenção sempre em círculos a concentrar. Matryoshka-Matriz. O eixo vertical segura os ritmos circulares:

É o caso de um tubo de pvc a furar um banco metálico paralelo à anilha na cintura do tubo, rodeando uma cortina redonda de fios compridos amarelados que caem da boca tubular quase até ao chão.

Ou dois parassóis pretos translúcidos giratórios que rodam paralelos muito próximos um do outro à distancia de dois dedos, presos por um fio fitado que continua quase até ao chão.

A delicadeza que vem da acuidade das combinatórias deve-se ao apuramento do método que é frio e quente. Implica uma entrega à tarefa que só um pragmatismo devaneante consegue. Envolve cozimento e costura, rapidez na captura dos acidentes que ficam, limpeza e varrimento para perseguir os acasos certos. Abertura – porque a natureza é sempre curva e não se sabe quando nos vai apanhar.

have you come

to save us haiku poets?

red dragonfly

Kobayashi Issa


Francisca Carvalho
Junho de 2017

Sem título

Galeria

Sem título (pormenor), 2017

PVC, bronze, ferro, fios de poliester

274 x 51 x 30 cm

Créditos da imagem: Filipe Braga

Vista da exposição Matryoshka, 2017, Galeria Quadrado Azul Porto. Créditos da Imagem: Filipe Braga

Sem título, 2017

Objecto encontrado (ferro) e purpurina

114,5 x 142 x 0,5 cm

Créditos da imagem: Filipe Braga

Sem título, 2016

Dóis parassóis, fita de cetim, chumbo, madeira e motor

209 x 36 x 26 cm

Créditos da imagem: Filipe Braga

Sem título, 2015

Calcário e parafina

31,5 x 34,2 x 2,8 cm

Créditos da imagem: Filipe Braga

Vista da exposição Matryoshka, 2017, Galeria Quadrado Azul Porto. Créditos da Imagem: Filipe Braga, 2017

Créditos da imagem: Filipe Braga

Sem título, 2017

Bronze

53 x 21 x 7 cm

Créditos da imagem: Filipe Braga

Sem título, 2017

Objecto encontrado (vidro)

114.5 x 142 x 0,5 cm

Créditos da imagem: Filipe Braga